Devagarinho.

Devagarinho.

Sonhos de Raskólnikov (Dostoiévsky)

Nunca os homens se julgaram tão sábios, tão seguros da verdade... Nunca tinham tido mais confiança na infalibilidade dos seus juízos, na solidez das conclusões científicas e dos princípios morais. (...). Cada qual julgava saber, ele só, a verdade inteira ... Ninguém se entendia sobre o bem e o mal, nem sabia quem se havia de condenar ou absolver. Matavam-se uns aos outros levados por uma raiva absurda...Ninguém sabia e todos andavam inquietos. Cada um propunha as suas idéias, as suas reformas e não havia acordo; ... Aqui e ali se reuniam vários grupos, combinavam uma ação comum, juravam não se separar - mas logo depois esqueciam-se da resolução tomada, começavam a acusar-se uns aos outros, a bater-se, a matar-se. Os incêndios e a fome completavam o triste quadro. Homens e coisas, tudo perecia. O flagelo estendia-se cada vez mais. No mundo só podiam salvar-se alguns homens puros, predestinados a refazer a humanidade, a renovar a vida e a purificar a terra; mas ninguém via esses homens; ninguém ouvia as suas palavras e suas vozes. (Crime e Castigo)

terça-feira, 21 de julho de 2009

Walt Whitman

Canto da Estrada Real

Escutai! Quero ser sincero convosco,
Não vos ofereço os fáceis prêmios do passado,
rudes e novos são os prêmios que vos ofereço (...).
Apenas chegados à cidade que vos foi destinada,
apenas instalados, num ímpeto irresistível
há de vos forçar a deixá-la.
Então, recebereis os sorrisos irônicos
e as zombarias dos sedentários
e dos que ficam atrás de vós,
Se receberdes alguns sinais de afeição,
respondereis com apaixonados adeuses,
Não permitireis que vos retenham,
embora vos abram e estendam os braços com amor.

Vamos!
Sigam os grandes companheiros,
para que nos tornemos um deles!
Também eles seguem o caminho.
São os mais esbeltos e majestosos homens;
as mais formosas mulheres,
Amam os mares tranquilos como os mares tempestuosos.
Navegaram em muitos navios,
caminharam muitas léguas de terra firme,
Conheceram países longínquos,
conheceram longinquos lugares,
Confiaram nos homens e mulheres,
observaram cidades, laboriosos solitários,
Detiveram-se a contemplar as ervas silvestres,
as flores e as conchas das praias,
Dançaram nas núpcias, abraçaram a desposada,
acariciaram ternamente as crianças, trouxeram-nos ao colo.


Quem quer que sejas, para a frente!
Homem ou mulher, para a frente!
Não deves permanecer a dormir e a vegetar em casa,
embora a tenhas construído, ou a tenham construído para ti.
Sai dos negros limites! Sai de entre cortinas!
É inútil que protestes, sei de tudo, e o denuncio.
Olha dentro de ti, que não vales mais que os outros,
Através dos risos, danças, jantares, ceias coletivas.
Sob os costumes e ornamentos,
sob essas faces lavadas e besuntadas,
Olha o secreto desgosto e o desespero silencioso.
Nem o marido nem a mulher ou o amigo,
a ninguém nos fiemos para ouvir a confissão.
É um outro eu um duplo de cada um, que, a passos furtivos,
oculta e dissimula ser verdadeiro ser,
amorfo e sem voz pelas ruas da cidade,
polido e elegante nos salões,
Nos vagões da estrada de ferro,
nos navios, nas assembléias públicas,
Nas moradas dos homens e das mulheres,
à mesa, no quarto, em toda a parte,
Elegantes rostos sorridentes, talhe erguido,
a morte no peito, o inferno no cérebro,
Sob as blusas finas e as luvas,
sob os cintos e as flores artificiais.
Respeitosos dos costumes, nada fazem de si mesmos,
Falando de qualquer coisa, mas jamais de si mesmos.

Camarada, dá-me tua mão!
Eu te dou meu afeto mais precioso que o dinheiro,
eu te dou a mim mesmo em vez de prédicas e de leis.
Queres dar-te a mim? Queres seguir comigo?
Seguiremos juntos, um ao lado do outro,
enquanto durarem nossas vidas!

Um comentário:

OCEANUS disse...

Lindo, lindo como é belo o ser... se pudesse devoraria a vida, mas se come-lá o q terei para beber? Talvez a morte? rsrsrsrsrsr